Divisão no MAS e voto nulo defendido por Evo Morales fragilizam candidatos progressistas
Pela primeira vez em quase duas décadas, a direita boliviana aparece como favorita nas eleições presidenciais marcadas para 17 de agosto, em meio a uma profunda divisão no Movimento ao Socialismo (MAS), partido que governa o país desde 2006. O megaempresário Samuel Medina, da Alianza Unidad, lidera as pesquisas com cerca de 30% das intenções de voto, seguido pelo conservador Jorge “Tuto” Quiroga, ex-presidente interino (2001-2002). A fragmentação da esquerda – agravada pelo racha entre o ex-presidente Evo Morales e o atual mandatário, Luis Arce – deixou o MAS sem um candidato competitivo: o ex-ministro Eduardo Del Castillo, apoiado por Arce, não ultrapassa 2% nas pesquisas, enquanto Andrónico Rodríguez, ex-aliado de Evo, despencou para 6%. Morales, impedido de concorrer, defende o voto nulo e acusa antigos correligionários de traição, enfraquecendo ainda mais as chances da esquerda.
A crise no MAS reflete a erosão de um partido que já dominou a política boliviana com maioria qualificada no Congresso e agora corre risco de ficar abaixo da cláusula de barreira de 3%. Enquanto isso, Medina e Quiroga – ambos da direita tradicional, sem traços de extremismo – somam juntos 47% das intenções de voto, segundo pesquisa do jornal El Deber. Caso nenhum candidato atinja 50% dos votos ou 40% com 10 pontos de vantagem sobre o segundo colocado, haverá um segundo turno inédito em 19 de outubro. A eleição também definirá os 130 deputados e 36 senadores do país, que vive uma crise econômica persistente. Especialistas avaliam que, mesmo com uma virada à direita, o novo governo dificilmente revogará a Constituição plurinacional de 2009, marco do governo Morales, devido à necessidade de coalizões no Congresso. A Bolívia, assim, pode testemunhar o fim de um ciclo político, mas não necessariamente a ruptura de seu modelo de Estado.
Foto: Jorono/Pixabay

