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Centenário de Ruy Barata resgata a cultura do povo paraense

Centenário de Ruy Barata resgata a cultura do povo paraense

Foto: Paulo Jares

Por Kaliu Andrade, Revista Bacana

Este seria o ano de celebração do centenário de um dos maiores nomes da cultura paraense do século XX, Ruy Barata. Eventos nas áreas literária, artes plásticas, musical e teatral por todo o estado do Pará já estavam programados para acontecer, com a pandemia a programação teve que ser adiada.

Nascido em Santarém, no Baixo Amazonas, em 25 de junho de 1920, o poeta, letrista, compositor e político Ruy Guilherme Paranatinga Barata deixou um legado para o Pará. Figura conhecida das altas rodas da poesia no Brasil, encerrou sua carreira aos 69 anos de idade ao deixar este plano. Nem a morte foi capaz de silenciar sua voz, tão presente e contemporânea em suas obras. Um homem multifacetado e de muitos talentos

O poeta 

Em 1938, Ruy Barata entrou para a Faculdade de Direito do Pará. Em meio aos estudos jurídicos, ele se aproximou ainda mais da poesia. Maiakovski, Garcia Lorca, T.S. Elliot, Mallarmé, Rilke, Pablo Neruda, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima foram fontes de inspiração para o desenvolvimento da sua poesia.

Em 1943, publicou seu primeiro livro de poemas Anjo dos Abismos, pela José Olympio Editora, com o decisivo apoio do romancista paraense Dalcídio Jurandir.

Em 1951 publicou os poemas de A Linha Imaginária (Edições Norte, Belém)

O político 

Ruy Barata decidiu entrar na política para lutar contra o autoritarismo de Magalhães Barata, aos 26 anos no ano de 1943 foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP) e reeleito em 1950. Já em 1957, agora filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi eleito deputado federal quando se afirmou como a voz progressista no Pará em defesa do monopólio estatal do petróleo, das grandes causas nacionais e da paz mundial, nos momentos cruciais da chamada guerra fria.

O compositor 

Em 1964, com o golpe militar, Ruy Barata foi preso, demitido de seu cartório (então 4º Ofício do Cível e Comércio da Comarca de Belém) e aposentado compulsoriamente do cargo de professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará, com menos de 10% de seus proventos. Para sobreviver passou a exercer a advocacia no escritório de seu pai, Alarico Barata, e a escrever artigos e reportagens com pseudônimos, como Valério Ventura, para os jornais Folha do Norte e Flash.

A partir de 1967, Ruy Barata, que tinha, desde a juventude, uma estreita ligação com a música, passou a compor em parceria com seu filho, o então jovem músico e instrumentista Paulo André Barata. Dessa parceria nasceram músicas que consagraram Ruy como compositor, entre elas “Pauapixuna” e “Foi Assim”, que conquistaram o Brasil pela voz de Fafá de Belém.

Reconhecimento ao grande Ruy Barata

Em dezembro de 2019, o Projeto de Lei 178/2019 de autoria da deputada Marinor Brito, foi sancionado pelo governador Helder Barbalho que instituiu no calendário oficial do estado do Pará o Ano Cultural Ruy Barata, em comemoração ao centenário de nascimento do poeta.

“O Projeto de Lei da deputada Marinor, sancionada pelo governador Helder Barbalho, é sensacional. Porque em vez de outorgar uma medalha ou um diploma, transformou o ano de 2020 no Ano Cultural Ruy Barata, em que todas as ações culturais e artísticas do Governo teriam a chancela do meu pai. É uma lei inovadora que mexe com a arte e cultura paraenses. Fico muito satisfeito com essa homenagem. Assim que terminar esta pandemia, vamos retornar os projetos e ações culturais relativos à data”, explicou o jornalista Tito Barata, filho de Ruy.

“Minha afinidade com a obra de Ruy vem de longe, lá de Óbidos, onde meu pai, José Benito Priante, médico, conheceu o poeta. Tornaram-se amigos, de papo e de copo. Acabaram virando compadres. Meu pai foi padrinho de um dos filhos do Ruy. Foi com grande entusiasmo que destinei o total de R$ 460.387,00 em emenda parlamentar para a realização de diversos eventos comemorativos ao centenário de Ruy Barata. Tenho orgulho de dizer que sou o parlamentar que destinou o maior volume de recursos ao projeto”, afirmou o Deputado Federal Priante.

Songbook, biografia e um espetáculo musical, tudo preparado para que o público pudesse mergulhar na poesia, obra e vida de Ruy Barata. Aos admiradores, só resta esperar que tudo se normalize para que em breve se possa seguir a programação cultural do centenário de Ruy Barata.

O que falam sobre Ruy

Um dia, um amigo Fernando Pessoa, me apresentou a poesia de Ruy Barata. Depois sabendo que eu ia a Belém, insistiu para que eu conhecesse o poeta. Dois motivos pelos quais Fernando foi o maior amigo que tive na vida. – Ruy Castro – Jornalista, escritor e biógrafo

Ruy Barata é, sem dúvida, um dos melhores letristas do Brasil. Sem perder o conteúdo emocional, suas letras tem sempre a palavra exata e a sonoridade condizente com a melodia. Ruy tornou grande o difícil ofício de letrar músicas. – Paulo Sérgio Valle – Letrista e compositor, parceiro do irmão Marcos Valle em mais de 500 canções; é o atual presidente da União Brasileira de Compositores

Advogado, bem nascido e bem criado, podia ter ido para a França, sua segunda matriz cultural e seguido uma carreira de playboy. Mas virou comunista, sem jamais deixar-se seduzir, entretanto, pelos dogmas catequéticos da seita. O que sempre causou confusão ou perplexidade entre os seus severos acompanhantes: uma hora deixava-se levar pelo mundanismo, a joie-de-vivre que é o sal da vida. – Lúcio Flávio Pinto – Sociólogo e jornalista.

Ruy Barata era um verse maker, que produzia versos fortes, versos que a gente lê e nunca mais esquece. São pedras de toque. – Pedro Galvão – Poeta e publicitário.

Ruy é um artista e uma grande figura humana. Ele tem um dom maravilhoso: Ruy sabe sonhar. Tem o maravilhoso dom de sonhar. – Waldemar Henrique (1905 -1995), maestro, pianista, compositor e escritor brasileiro; foi parceiro de Ruy em uma canção.