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Bispos dizem que lideranças na Amazônia são ‘criminalizadas como inimigos da Pátria’

Bispos dizem que lideranças na Amazônia são ‘criminalizadas como inimigos da Pátria’

Foto: Leonardo Monteiro/Arquidiocese de Belém

Por G1 Pará

Os bispos da Amazônia divulgaram, na sexta-feira (30), uma carta em que defenderam a preservação da região amazônica e lamentaram que suas lideranças sejam “criminalizadas como inimigos da Pátria”.

O documento foi o resultado de um encontro que começou na quarta (28), em Belém, e serviu de preparação para o Sínodo da Amazônia, que ocorrerá em outubro no Vaticano.

O sínodo foi convocado pelo Papa Francisco e deve colocar a floresta no centro das atenções da Igreja por pelo menos um mês. Também deve despertar a atenção de governos, ambientalistas e empresas que atuam na região.

Na reunião em Belém, que durou três dias, os 56 bispos das dioceses e prelazias brasileiras da Amazônia, além de convidados clericais e leigos, discutiram o instrumento de trabalho do sínodo, que vai orientar o encontro no Vaticano.

O documento final, da sexta-feira (30), destaca a atuação histórica da Igreja na floresta desde o século 17.

“Quanto sangue, suor e lágrimas foram derramados na defesa dos direitos humanos e da dignidade, especialmente dos mais pobres e excluídos da sociedade, dos povos originários e do meio ambiente tão ameaçados”, diz o documento.

“Lamentamos imensamente que hoje, em vez de serem apoiadas e incentivadas, nossas lideranças são criminalizadas como inimigos da Pátria”, escreveram os bispos, sem citar quem estaria fazendo a criminalização de suas lideranças.

O governo brasileiro já manifestou preocupações sobre o Sínodo da Amazônia. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, admitiu que a interferência de estrangeiros nas questões amazônicas incomoda a administração do presidente Jair Bolsonaro.

Em nota publicada em fevereiro, em resposta ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o GSI admitiu “preocupação funcional com alguns pontos da pauta” do sínodo sobre a Amazônia.

“Parte dos temas do referido evento tratam de aspectos que afetam, de certa forma, a soberania nacional”, diz a nota. O GSI negou, no entanto, que a Igreja seja alvo de investigações da inteligência.

A ajuda externa para combater as queimadas na floresta também foi motivo de troca de farpas entre Bolsonaro e o presidente francês, Emmanuel Macron, nas últimas semanas, durante o encontro do G7.

Na carta publicada na sexta-feira (30), os clérigos da região amazônica afirmaram que a soberania sobre a parte brasileira da floresta é “inquestionável”, mas apoiaram “a preocupação do mundo inteiro” sobre a região.

“Todas as nações são chamadas a colaborar com os países amazônicos e com as organizações locais que se empenham na preservação da Amazônia”, disseram.

Os países amazônicos são Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Peru, Venezuela, Suriname, Guiana e Guiana Francesa. No total, são cerca de 34 milhões de pessoas, dos quais mais de 3 milhões são indígenas de 390 grupos étnicos diferentes.

Defesa da preservação

Na carta publicada na sexta-feira (30), depois da reunião em Belém, os bispos afirmam estar “angustiados” com a situação na Amazônia, que vem registrando recordes de queimadas.

“Ficamos angustiados e denunciamos o envenenamento de rios e lagos, a poluição do ar pela fumaça que causa perigosa intoxicação, especialmente das crianças, a pesca predatória, a invasão de terras indígenas por mineradoras, garimpos e madeireiras, o comércio ilegal de produtos da biodiversidade”, escreveram os clérigos.

Os bispos voltaram a defender a convocação do sínodo pelo Papa Francisco – que afirmaram chegar em um tempo crucial da história.

A ideia do encontro de outubro no Vaticano veio das dificuldades da Igreja em atender os povos da região – especialmente os indígenas.

“O problema essencial é como reconciliar o direito ao desenvolvimento, inclusive o social e cultural, com a tutela das caraterísticas próprias dos indígenas e dos seus territórios”, afirmou Francisco, em fevereiro de 2017.

Entre os principais pontos a serem debatidos na reunião estão:

  • a complexa situação das comunidades indígenas e ribeirinhas, em especial os povos isolados;
  • a exploração internacional dos recursos naturais da Amazônia;
  • a violência, o narcotráfico e a exploração sexual dos povos locais;
  • o extrativismo ilegal e/ou insustentável;
  • o desmatamento, o acesso à água limpa e ameaças à biodiversidade;
  • o aquecimento global e possíveis danos irreversíveis na Amazônia;
  • a conivência de governos com projetos econômicos que prejudicam o meio ambiente.