
Se no Brasil o marco inicial do rádio é datado de 1922, na região amazônica demorou cinco anos para que seus habitantes pudessem ouvir pela primeira vez as ondas radiofônicas. E a História do Rádio no Pará se confunde com a História da radiodifusão na Amazônia. Aqui, a primeira emissora a entrar em operação foi a Rádio Clube, inspirada na Rádio Clube de Pernambuco, é criada em Belém, em 22 de abril de 1928, a quarta emissora a ser criada no Brasil, por Edgar Proença, jornalista e colunista social; Roberto Camelier, advogado; e Eriberto Pio, telegrafista. Inicialmente, o sinal abrangia apenas a capital paraense.
Nos anos 1930, a produção em série de aparelhos de rádio contribuiu para massificar a audiência dos programas radiofônicos. A invenção dos rádios a válvula naquela década ajudou a baratear o custo da produção dos aparelhos receptores e contribuiu para ampliar o acesso do público ouvinte. A Rádio Club do Pará beneficiou-se por esse processo de ascensão do rádio. Seus profissionais, na maioria, foram recrutados junto aos jornais locais. PRC-5 e “a voz que fala e canta para a planície” tornaram- -se prefixo e slogan da Rádio Club do Pará, respectivamente.
O incremento da participação financeira dos patrocinadores na programação tornou o empreendimento um negócio rentável. Ao mesmo tempo, os grupos políticos da época passaram a tomar o rádio como um formidável instrumento de projeção junto à sociedade. A programação radiofônica paraense não era muito diferente do que estava acontecendo em nível nacional. Programas de auditório, musicais, concursos de calouros, radionovelas, jornalismo e esporte eram alguns dos formatos apresentados pelas rádios regionais. Os programas musicais da emissora eram apresentados em seu auditório, inaugurado em 1945 no complexo Aldeia do Rádio, primeira sede própria da emissora, localizada no bairro do Jurunas.
No campo esportivo, a “Clube” foi a primeira emissora do Norte a transmitir uma partida de futebol, em 1935, jogo narrado pelo próprio Edgar Proença, três anos após a primeira transmissão ocorrida no Brasil. A Rádio foi também a primeira emissora do Norte a transmitir uma partida de Copa do Mundo, a final de 1950, no Rio de Janeiro, contra o Uruguai.
Os anos 1940 são vistos pelos profissionais do rádio local como sua ‘fase de ouro’. A Rádio Club ampliou seu alcance por meio das Ondas Tropicais e passou a atingir recantos longínquos do interior do estado. Antes do rádio, o contato entre o homem do interior da região e o centro urbano era feito pelo barco que abastecia os seringais e pequenas povoações com suas mercadorias, os “regatões”. A casa aviadora e o regatão – e posteriormente o Departamento dos Correios e Telégrafos (DCT) – quebravam o isolamento e levava também as cartas dos parentes que viviam nas localidades, às margens dos rios.
A partir de 1942, quando a Rádio Clube do Pará começou a operar também em Onda Tropical, a emissora passou a ser ouvida em praticamente toda a região amazônica e até fora do país. Tamanho cuidado contribuiu para que a clube conquistasse o apelido de ‘A Poderosa’, pois seu sinal ultrapassava as fronteiras do país.
Desde o início da década de 1930, o samba despontava como o estilo musical mais popular do país, sucedendo a preferência popular do início do século por maxixes, tangos e boleros. No caso do Pará, ao lado do samba, as emissões radiofônicas também destacavam os ritmos latinos ouvidos desde os anos 1920 nos programas de estações estrangeiras como a Rádio Habana, de Cuba. Era comum nos anos 1950 a audiência local de boleros e merengues, além de salsas, congos, mambos e cúmbias, destacando-se como uma particularidade da recepção musical regional.
Em Belém e interior, entre os anos 1950 e o início de 1960, principalmente nos fins de tarde, o hábito de parte da população era sintonizar os aparelhos de rádio nas emissoras de outros países próximos, pois estas chegavam com muito mais nitidez do que as emissoras nacionais. Das emissoras estrangeiras a Rádio Habana era a mais popular, por meio da qual se escutavam merengues, salsas e, obviamente, propagandas políticas.
Toda essa valorização das ondas tropicais se justificaria pela quase ausência de emissoras locais no interior do estado, daí que os sinais de maior alcance ofereciam relativa melhor nitidez nestas regiões, haja vista não haver congestionamentos. Já nos centros urbanos, onde, sobretudo a partir da década de 1960, surgiram cada vez mais emissoras que passaram a funcionar por meio de ondas médias, a utilização de ondas tropicais já não se fazia tão pertinente.
Até 1954, a Rádio Clube não possuía concorrência. Coube ao grupo Diários Associados, do empresário Assis Chateaubriand, quebrar essa hegemonia no estado, inaugurando a Rádio Marajoara, ampliando sua rede de comunicação no Estado, no qual era proprietário de um grande jornal, A Província do Pará – relançado em 1947, após 21 anos de inatividade. A rádio Marajoara foi a emissora que deu maior destaque ao jornalismo, mantendo uma grande equipe de repórteres, cobrindo eventos, tendo o suporte de agências noticiosas e emissoras de outras localidades. Cobrindo a área policial e de problemas urbanos da cidade de Belém, o programa Patrulha da Cidade esteve entre os de maior sucesso, por décadas.
Os profissionais que trabalharam na fundação da Marajoara foram provenientes de outras emissoras associadas do Rio de Janeiro e de São Paulo e seus equipamentos importados dos Estados Unidos. Seu estúdio e auditório foram instalados na Praça Justo Chermont, que hoje abriga o Centro Arquitetônico de Nazaré, bem no centro da cidade. Isto era uma vantagem tomada pelos ouvintes da época, visto que o auditório da PRC-5 situava-se em um bairro considerado periférico da cidade. Apresentaram-se no auditório da Marajoara vários artistas do cast da Rádio Nacaional e das Emissoras Associadas de Chateaubriand. Estiveram presentes na cidade na década de 1950 Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Emilinha Borba, Yvon Curi, dentre outros.
No mesmo ano de inauguração da Marajoara, foi entregue o Edifício Palácio do Rádio, na então Avenida 15 de agosto (atual Presidente Vargas) construído justamente para abrigar a sede da Clube. O projeto originou-se de uma concessão da Prefeitura Municipal aos acionistas da sociedade que administrava estação. Contudo, sem os recursos necessários, repassaram a propriedade do terreno a uma empresa construtora, de propriedade do engenheiro Judah Levy, que assumiu o compromisso de garantir à emissora a propriedade de todo o segundo andar do edifício.
Concorrendo com as únicas rádios de Belém, existiam os “sonoros”, serviços de alto-falantes de áreas comerciais da cidade, dedicados à publicidade, mas intercalando alguma programação musical durante a propaganda. Os sonoros comerciais consistiam na distribuição de alto-falantes em postes, numa rede ligada a um estúdio central instalado no interior da área de comércio. Alguns radialistas de sucesso em Belém dos anos 1950, 1960 e 1970 eram oriundos destes serviços sonoros. Os exemplos mais destacados são os radialistas Costa Filho, Eloy Santos, e Haroldo Caraciolo, importante divulgador do merengue no rádio paraense, considerado por muitos como o precursor do ritmo musical Lambada.
As ondas do rádio embalaram os sonhos dos paraenses daquele período, de grande desenvolvimento e avanços tecnológicos, que se estabeleceu no interstício entre as duas ditaduras da República, a do Estado Novo e a militar, de 1964. Os tempos considerados áureos desse meio de comunicação prosseguiram até a década de 1960, período marcada pela chegada da TV ao Pará.