Foto: Bruno Cecim / Ag.Pará
Por DOL, com informações da Agência Pará
A equipe médica e assistencial da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará realizou o primeiro transplante de rins em paciente pediátrico, em novembro deste ano. Em agosto, a instituição foi credenciada pelo Ministério da Saúde a oferecer a opção dialítica para pacientes pediátricos pesando a partir de 15 quilos, que antes só era possível em tratamento fora de domicílio. Com a habilitação, a entidade passa a oferecer atendimento ainda mais integrado ao Serviço de Terapia Renal Substitutiva Pediátrica, que já é referência no Estado e dá suporte a cerca de 40 crianças que estão na fila de espera por doação.
A primeira paciente a passar pelo procedimento foi Samile Ribeiro Caxias Moraes, 11 anos, que recebeu o órgão da própria mãe, Sueli Ribeiro Caxias Moraes, 42 anos. A criança foi diagnosticada com câncer nos dois rins e precisou retirar os órgãos aos 5 anos de idade. Em todo esse tempo, permaneceu dependente de hemodiálise, realizou tratamento oncológico e, após a cura do câncer, foi liberada pela equipe médica para o transplante.
A cirurgia de retirada dos rins de Samile Moraes foi realizada pela mesma equipe que implantou o novo órgão, liderada pelo cirurgião pediátrico Eduardo Amoras Gonçalves. ”Essa criança premia a nossa trajetória ao longo de 2019, em que estávamos com o propósito direcionado de habilitar o transplante renal. É uma paciente muito especial, porque precisou da cirurgia radical e passou por muitas sessões de quimioterapia e radioterapia, até ficar fora de tratamento. Ela não tem mais doença neoplásica maligna. Vários testes foram feitos, a mãe se enquadrou no perfil de compatibilidade. É uma vitoriosa. A história por si só fala. Vir ao hospital em dias alternados restringe as possibilidades de brincar e interagir com outras crianças. Ela venceu um câncer severo. A mãe ajudou a criança a passar por todo o tratamento com uma cabeça muito boa. É uma família vencedora, e isso deixa a gente mais feliz ainda”, afirmou Eduardo Amoras Gonçalves.
Transplante – Para o transplante intervivos foram necessários dois procedimentos simultâneos, que mobilizaram cerca de 30 profissionais em mais de quatro horas de duração. Mãe e filha foram juntas para o bloco cirúrgico, mas ficaram em salas separadas. Por lei, a equipe que retira o órgão de um corpo não pode ser a mesma que o implanta em outro.
De acordo com a nefrologista pediátrica Monick Calandrini Rodrigues, coordenadora do Serviço, houve toda uma preparação técnica, burocrática e clínica para a realização do transplante. “Já viemos com uma experiência anterior. A equipe e as pacientes estavam bem preparadas. Tínhamos a segurança de que o transplante estava ocorrendo no melhor momento para a paciente, para equipe e para a instituição”, assegurou a médica.
A evolução foi dentro do esperado no caso de doador vivo. Desde o bloco cirúrgico, o rim doado já estava funcionando no corpo de Samile, indicando que o procedimento estava dando certo. Em seguida, mãe e filha receberam cuidados nas unidades de Terapia Intensiva. Com o passar dos dias, e a plena recuperação, Sueli recebeu alta médica e voltou ao hospital apenas para visitar a filha, que passou a ser acompanhada pelo pai, Márcio Mendonça Moraes.
Ele, que ficou acompanhando Samile, agradeceu o fim da longa batalha. “Foi difícil, mas com Deus tudo é possível. Eu creio que quando uma família entra num processo como esse até os laços de união ficam melhores. A gente acaba valorizando mais a família, a esposa, os filhos. A gente entende que tem que valorizar a vida e as pessoas ao nosso lado. Espero que ela tenha cada dia mais êxito e possa fazer o que gosta. Às vezes, ela estudava só duas vezes por semana, mesmo assim tirava boas notas. Agora, creio que vai ter mais tempo para a escola, para os priminhos e amiguinhos”, disse Márcio Moraes.
O pai da menina também fez questão de destacar o atendimento recebido na Santa Casa.
“Eu só quero agradecer primeiramente a Deus e à qualificação dos médicos, pela equipe que tem trabalhado. A gente vê o cuidado com as crianças desde a hemodiálise. Várias vezes eu acompanhei a forma como a equipe técnica trabalha com os pacientes e, acima de tudo, dão força aos pais, motivando-os a superar aquele momento. São pessoas que Deus colocou na Terra para ajudar as outras. Que Ele continue abençoando essa equipe e a Santa Casa” – Márcio Moraes, pai da menina Samile.
“Se oferecessem mais do que a quantidade de água que podia tomar, ela não tomava. Ela sabia os nomes de todas as medicações. O cateter durou mais de quatro anos, um período que muitas crianças não conseguem manter. Tudo isso mostra a responsabilidade dela. Eu saía para trabalhar e ela sempre tomou conta de si, direitinho. Claro que com um adulto por perto, mas ela sempre foi muito responsável” – Sueli Moraes, mãe de Samile, que é servidora pública na Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna.
De acordo com a nefropediatra Monick Calandrini Rodrigues, Samile tinha uma creatinina, exame que mostra a função renal, de 12. No adulto, essa taxa varia de 0,8 a 1,3. No terceiro dia após o transplante, a taxa a menina já era 0,9, e agora 0,6, que é de uma criança normal. Ela também está urinando de 2 a 3 litros por dia. “Estamos muito felizes e otimistas. Ela deve receber alta e seguir no acompanhamento ambulatorial, primeiro semanalmente, e depois quinzenalmente. Depois passa por avaliações mensais e tomando as medicações. Estamos gratos a Deus e a todos que tornaram isso possível”, reforçou a nefropediatra.
