Presença de Johnny Depp ofusca abertura do Festival de Cannes

Foto: Chistophe Simon/AFP

O 76º Festival de Cannes começou, na terça (16), sob o signo da controvérsia. O motivo é a presença de Johnny Depp no filme de abertura, Jeanne Du Barry, dirigido por Maïwenn, no qual ele interpreta o rei Luís 15 da França. Alguns acharam um absurdo o ator, que passou por um divórcio complicado de Amber Heard, que o acusou de violência verbal e física, ser recebido com pompa, no tapete vermelho mais impressionante do mundo do cinema. Mas, em geral, sua vinda a Cannes foi vista como um grande retorno depois do processo de difamação vencido por ele contra a ex-mulher. Depp foi recebido por fãs ávidos em conseguir uma foto ou um autógrafo, e o filme foi bem-recebido (como quase sempre no festival) na sessão de gala com a presença dele e da equipe.

Na quarta (17), a entrevista coletiva de Jeanne Du Barry atrasou 26 minutos e começou sem a presença de Depp que se atrasou cerca de 15 minutos. Mas, quando ele chegou, respondeu às várias perguntas sobre sua volta, sobre o escândalo, sobre as pessoas que não queriam sua presença em Cannes – embora sempre de um jeito Johnny Depp, cheio de idas e vindas e voltas. “Eu já tive uns 17 retornos, mas na verdade nunca fui embora. Pode ser que tenham parado de me ligar por medo, por algum tempo. Mas estou aqui”, disse ele, comentando a narrativa da volta.

Ele também confirmou que se sentiu boicotado por Hollywood na época de seu divórcio e do julgamento. “Teria de estar morto para não notar”, afirmou. “Pois o que dizer quando você é obrigado a deixar um filme por causa de vogais e consoantes flutuando no ar? Mas me sinto boicotado agora? Não. Não me sinto porque não penso no assunto. Eu não sinto muita necessidade de Hollywood. É uma época estranha, em que todo o mundo amaria poder ser quem realmente é, mas tem de andar na linha. Que bom para quem quer essa vida, mas vejo vocês do outro lado.”

O ator também comentou sobre os protestos na internet e na imprensa sobre sua presença em Cannes. “Vamos falar sobre as pessoas teoréticas que não me queriam aqui”, disse o ator. “Vamos supor que eu fosse proibido de entrar no McDonald’s porque sempre haverá 30 pessoas me vendo comer um Big Mac por diversão. Quem são essas pessoas? Por que se incomodam tanto? Eu acho que provavelmente elas estão escondidas atrás de uma montanha de purê de batata e têm tempo demais disponível. Não acho que eu deveria me preocupar.”

O ator também disse que conhece bem o “circo” do Festival de Cannes. “Eu vim pela primeira vez em 1992, acidentalmente, porque estava com o diretor Emir Kusturica. E foi um circo como nunca tinha visto. Continua igual”, disse. “E essa parte do circo armado em volta do festival é estranha porque você acredita no que quiser, a verdade é a verdade, mas esses ruídos abstratos que ouvimos fazem com que as pessoas falem do filme. A maioria das coisas que vocês leram nos últimos cinco ou seis anos sobre minha vida foi uma ficção, uma fantasia escrita horrivelmente. A verdade é que estamos aqui para falar sobre o filme. O resto é apenas chato. Vocês não estão cansados disso?”

O filme? Bem, Depp, que passou bastante tempo na França quando foi casado com Vanessa Paradis, teve de aperfeiçoar seu francês para fazer o papel inteiramente na língua. Segundo a diretora Maïwenn, ele já falava francês fluentemente, só parando às vezes para procurar alguma palavra, e sabia mais de Luís 15 do que ela própria.

Maïwenn, que também interpreta Jeanne Du Barry, conseguiu desempoeirar um pouco a história, seguindo uma onda que tenta modernizar personagens de séculos anteriores, antes vistos em rígidos filmes de época. Mas nem ela, nem Depp conseguem dar conta de personagens complexos, que desafiaram a corte francesa com seu caso de amor – ter amantes não era incomum para os reis franceses, mas Jeanne nasceu pobre e foi cortesã, o que causou escândalo. Não ajuda também que a roteirista e diretora tenha focado quase exclusivamente na história de amor.

As antagonistas de Jeanne Du Barry são as filhas de Luís 15 e Maria Antonieta, futura rainha, mas o filme não se preocupa em dar a elas nenhuma dimensão. São todas apenas meninas más. Os personagens que apoiaram Jeanne – todos homens – têm muito mais camadas.

O filme não chega a ser penoso de assistir como os anteriores da diretora, Políssia (2011) e Meu Rei (2015) – ambos concorreram à Palma de Ouro, com o primeiro ganhando o prêmio do júri e o segundo, melhor atriz para Emmanuelle Bercot (empatado com Rooney Mara por Carol). É o típico longa de abertura, com estrelas para abrilhantar o tapete vermelho. Só que, no caso, Johnny Depp praticamente ofuscou a obra em si.

Por MARIANE MORISAWA, OMELETE