Foto: Mauro Ângelo/Diário do Pará
Por Cintia Magno, DOL
Criado em 1974, em Curitiba (PR), com o objetivo de proporcionar rapidez à mobilidade urbana, o modelo do BRT (Bus Rapid Trânsit) tem como premissa básica a integração não apenas de diferentes linhas de ônibus, como de variadas modalidades de transporte. Apesar disso, o mais recente trecho do BRT de Belém entregue à população, a avenida Augusto Montenegro, ainda mantém perímetros de ausência de calçadas e ciclovias.
As obras na via que liga o Entroncamento ao distrito de Icoaraci iniciaram em abril de 2015. Além da implantação de 13 km de corredores exclusivos para o BRT e das estações e terminais, o projeto incluía, segundo informado pela Prefeitura Municipal de Belém (PMB) à época, serviços de drenagem, pavimentação asfáltica e urbanização da via com a implantação de ciclovia, construção de novas calçadas, iluminação pública e área com vegetação e paisagismo.
A partir do elevado do Entroncamento, o cenário avistado ao longo da Augusto Montenegro é bem diferente do visto antes das obras. Além do BRT, a pista de rolamento por onde seguem os demais veículos recebeu asfaltamento e sinalização novos, largas calçadas dão espaço aos pedestres e ciclovias garantem mais segurança também aos ciclistas. O problema, porém, é que a boa estrutura começa a mudar à medida em que se desloca em direção a Icoaraci.
Do quilômetro oito em diante, as calçadas começam a não possuir mais pavimentação adequada. Como resultado, os pedestres passam a ter que caminhar por cima da terra, cacos de construção e até mesmo de lama, após uma breve chuva. No trecho do bairro do Coqueiro, a pista de rolamento da Augusto Montenegro, no sentido Entroncamento/Icoaraci, não dispõe de meio fio apropriado. Como consequência, além da ausência de calçamento nivelado, escorre pela pista uma vala com água do esgoto.
Para permitir que pedestres consigam atravessar da pista de rolamento para a calçada, passando por cima da lama, os moradores da área tiveram que improvisar uma ponte de madeira. “Quando chove, a água invade as casas aqui. A gente esperava que essa obra fosse melhorar a situação de quem mora aqui na Augusto Montenegro, mas não foi bem isso que a gente viu”, reclamava a aposentada Irenice Pinheiro, 62 anos. “Foi tanto tempo esperando melhorar e, quando termina uma obra, não presta”.
REVOLTA
A revolta é compreensível se considerado que, nos 10 anos em que mora no local, Irenice espera por uma infraestrutura que lhe permita caminhar sem correr o risco de ser atropelada. Ela conta que, sem o calçamento adequado e com o esgoto que corre pelo meio-fio, os pedestres são obrigados a dividir espaço com os carros em alguns trechos do perímetro. “Não tem como passar, a gente tem que ir para rua para andar competindo com os carros, se arriscando a ser batido”, lamenta. “Eu esperava uma coisa completamente diferente do que isso que foi entregue aqui”.
Alagamento causa acidentes
Continuando viagem em direção a Icoaraci, os problemas se intensificam. Já na altura da Estação Castro Moura nem mesmo o calçamento irregular está à disposição dos pedestres. Quando a pista de rolamento, destinada ao trânsito dos carros, chega à extremidade da via, enormes blocos de concreto impedem a circulação.
“Está muito complicada a nossa situação. Não tem como a gente passar porque é perigoso”, reclama a autônoma Gilvanete Melo, 52. “Eu desci na estação do BRT e queria atravessar no sinal, mas do outro lado não tem calçada e ainda tem esse alagamento aí”.
O alagamento a que Gilvanete se refere já causou acidentes no local. Em dias de chuva, um acumulo de água se forma no sentido Entroncamento/Icoaraci e encobre uma das duas faixas da via. Como se não bastasse, a água ainda esconde um enorme buraco. No último dia 7, o DIÁRIO registrou a queda de uma ciclista e o seu filho de 2 anos no local.
Na manhã de segunda-feira (10), outro ciclista caiu no buraco em decorrência do alagamento, além de incidente envolvendo até um caminhão. “Não dá para ver nada. O buraco é tão grande que estourou o pneu do caminhão”, contou Fábio José, 37, que teve a viagem interrompida em decorrência do incidente. “Isso porque o caminhão é alto. Imagina se fosse um carro pequeno”.
Técnico de logística, Sidney Novaes, 44, precisa transitar pela Augusto Montenegro constantemente e observa que este está longe de ser o único problema deixado pelas obras. “Está horrível aqui. Tem trecho que a via estreita de repente, não tem ciclovia . É vala, buraco”.
Sem as grades de proteção
Para além das condições de pavimentação da avenida e das calçadas, o próprio corredor expresso do BRT aponta flagrantes de perigo a pedestres e ciclistas. Logo no início das obras, os corredores expressos eram isolados da faixa de rolamento comum por grades de proteção. Hoje, com a obra concluída, porém, não se vê a proteção física em nenhum trecho, desde o Entroncamento até Icoaraci. Como consequência, é comum ver pedestres se arriscando e transitando pela pista exclusiva para os ônibus.
MODAIS
A importância de se integrar o sistema BRT a outros modais de transporte, como o cicloviário, por exemplo, é destacado pelo ‘Padrão de Qualidade BRT’, documento organizado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) e que estabelece uma definição comum de critérios considerados essenciais para um corredor ser qualificado como BRT.
NÚMEROS
R$326 milhões – foram investidos nas obras no trecho da Augusto Montenegro, do Entroncamento a Icoaraci.
11 estações – foram implantadas na avenida, além de três terminais de integração. Um elevado foi construído no cruzamento das avenidas Augusto Montenegro, Centenário e Independência.
INTEGRAÇÃO
Como poderia ser?
Um dos critérios considerados pelo ‘Padrão de Qualidade BRT’, elaborado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), é a condição de acesso à integração, na qual o documento sugere:
Infraestrutura cicloviária: A disponibilização de uma infraestrutura cicloviária integrada ao corredor exclusivo, que conecte as estações de BRT às principais áreas residenciais, centros comerciais, escolas e centros de negócios num raio de 2km.
Integração com sistemas de bicicletas compartilhadas: A disponibilização da opção de fazer viagens curtas a partir do corredor de BRT por bicicletas compartilhadas, oferecendo aos usuários uma outra opção para acessar seus destinos.
Estacionamento seguro de bicicletas: A oferta de estacionamento para bicicletas nas estações, a fim de permitir que os passageiros usem a bicicleta como transporte alimentador ao sistema de BRT. Os bicicletários fechados e com controle de acesso, que oferecem segurança e proteção contra as intempéries, têm maior probabilidade de serem usados pelos passageiros pois oferecem maior conveniência.
Fonte: Padrão de Qualidade BRT – ITDP
RESPOSTA
A Prefeitura de Belém afirma, em nota, que o projeto do BRT Augusto Montenegro contemplou a pista expressa, o elevado, as estações e os terminais, já finalizados. Os serviços de urbanização não eram objeto do contrato da obra. Para a urbanização do trecho compreendido entre o elevado José Augusto Affonso e o terminal Maracacuera foram garantidos R$ 147 milhões, junto ao Governo Federal, a fim de executar serviços complementares como ciclovia, calçadas, drenagem e pavimentação asfáltica onde for necessário, diz a nota. O texto afirma ainda que a Secretaria Municipal de Urbanismo está providenciando os processos licitatórios para execução das obras de urbanização. Enquanto isso, o trecho foi dotado de ciclovia provisória, responde a PMB.
Sobre as grades, a nota diz que elas não foram mais adotadas devido aos casos de furto no primeiro trecho, além de depredação e vandalismo.

