Home BACANA NEWS Da fantasia à pandemia: paraense que vive na França discute mudanças causadas pela Covid-19

Da fantasia à pandemia: paraense que vive na França discute mudanças causadas pela Covid-19

Da fantasia à pandemia: paraense que vive na França discute mudanças causadas pela Covid-19

Foto: Arquivo Pessoal

Por Felipe Pantoja, DOL

Era uma vez…

No Brasil, tudo começou assim, como num conto de fadas. Uma mera fantasia. Parecia até que teríamos um final feliz. Mas com a chegada dos primeiros casos de COVID-19, a fantasia rapidamente se transformou em uma histeria popular, afinal, a expectativa era de que fosse só uma gripezinha, ou um resfriadinho. Com as primeiras mortes, casos viraram números. Números viraram nomes. Nomes viraram rostos. E parece que só nos assustamos ao ver que os rostos eram daqueles que conhecemos, convivemos e amamos. 8022 mortos. Mas ainda há quem diga: “E daí? Não sou coveiro. Não posso fazer nada”.

E o pior é que podíamos fazer algo. E felizmente ainda podemos, segundo a ciência, a qual é apartidária e democrática. E a palavra de ordem é: Fique em casa! Isto é, caso você queira contribuir para o bem comum. É claro, o confinamento traz consigo males que precisam ser discutidos e resolvidos. Afinal, nos primeiros dias, tudo são flores. As “mini-férias” vão muito bem, obrigado. Mas com o passar do tempo, perdemos os horários, perdemos a rotina, e acima de tudo, perdemos o controle e a sanidade.

Quando perdemos o controle, há uma necessidade de reavê-lo: é o que chamamos no meio científico de mecanismos compensatórios. Infelizmente, a sociedade vem criando medos, neuroses e obsessões em uma busca incessante pelo controle epidemiológico. E isso vai criando uma pandemia paralela que afeta as relações humanas. Observamos, sobretudo, a emergência de patrulhas do confinamento alheio, dos fiscais da higiene, e de outros panópticos fazendo vigilância 24 horas por dia, sete dias por semana. No primeiro dia, tudo bem. No segundo dia, olhamos com desconfiança e insatisfação. No terceiro dia, vem a explosão. É algo que cansa tanto o vigilante quanto o vigiado.

Nesta pandemia paralela, pais brigam com filhos, casais se separam e amigos se digladiam em redes sociais, exatamente quando mais precisamos de suporte físico e mental. Deste modo, é preciso estar preparado para não cair nestas armadilhas emocionais ativadas em tempos de escassez de liberdade. Não devemos esquecer que, cedo ou tarde, o confinamento vai acabar, e voltaremos pros braços daqueles que tanto queremos bem e que tanto sentimos falta nesse momento. É hora de pensarmos, sim, no presente, mas também no futuro, em como será depois de tudo isso. Afinal, a única convicção que temos é que a ciência encontrará uma saída para este problema em breve.

E por fim, em relação ao que eu espero pra esse momento futuro, eu não sou tão otimista quanto os coaches e digital influencers de plantão. Eu acredito que, no atual momento, já nos tornamos seres humanos psicológica e comportamentalmente piores nesta quarentena. Julgamos mais, as redes sociais viraram um antro de auto-promoção ainda maior, com seres pseudo-produtivos e detentores de uma falsa paciência e resiliência que é contraposta por comportamentos que demonstram justamente o contrário. Portanto, eu compartilho da reflexão de Luiz Felipe Pondé: eu só espero que depois desta pandemia, voltemos a ser o que éramos antes dela.

Texto gentilmente cedido por Felipe Pantoja, que é professor e pesquisador em marketing da EISEG School Of Management e mora há quase 7 anos em Paris